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Raw Traveller

Explorar o mundo através das lentes: um blog de viagem e natureza, onde as fotografias são a principal inspiração para a criação de narrativas visuais únicas, repletas de detalhes e curiosidades.

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Explorar o mundo através das lentes: um blog de viagem e natureza, onde as fotografias são a principal inspiração para a criação de narrativas visuais únicas, repletas de detalhes e curiosidades.

10 de Agosto, 2023

Explorar a Serra da Lousã: trinta minutos a fotografar a beleza do pormenor.

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“Quem diz Castelo, pensa altura, domínio de quem está de cima, mas aqui tem de pensar outras coisas. Pensará sem dúvida, que o Castelo da Lousã é, paisagisticamente, das mais belas coisas que em Portugal se encontram” José Saramago em “Um castelo para Hamlet” in Viagem a Portugal

O Castelo da Lousã (ou Castelo de Arouce), classificado como Monumento Nacional, está intimamente ligado a uma paisagem natural deslumbrante e envolto por uma atmosfera histórica encantadora. No centro de um anfiteatro natural, este é ladeado por uma vista panorâmica, vales verdes e uma rica vegetação que oferece aos visitantes um ambiente único para explorar as suas ruínas bem preservadas. Posso comprovar que a zona em torno do Castelo da Lousã é sinónimo de tranquilidade e beleza natural, o que torna esta zona num destino popular para os amantes da natureza e para os caminhantes. Existem vários trilhos que serpenteiam a montanha e acompanham os vales, sendo que uma das formas mais agradáveis e desafiantes de se chegar a este ponto é seguir o passadiço que começa na Lousã.

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Pertencendo às primeiras linhas defensivas, o castelo tinha como objectivo controlar os acessos meridionais da cidade de Coimbra e foi edificado na segunda metade do século XI (o primeiro registo data de 1087 no testamento de D. Sesnando Davides, onde este mandou povoar o local). No entanto, em 1124, o Castelo caiu sobre domínio islâmico e só viria a ser reconquistado em 1151, aquando da Carta de Foral atribuída por D. Afonso Henriques. Muitos locais históricos estão intrinsecamente ligados a mitos ou lendas e este não é excepção: durante a ocupação muçulmana o castelo terá sido erguido pelo emir Arunce, para proteger a sua filha Peralta e os seus tesouros, após este ter sido derrotado e expulso de Conímbriga. Esta lenda acrescenta uma aura mística ao local e torna a sua envolvência ainda mais relevante, dando a sensação de asilo num país distante. Um amanhecer envolto em nevoeiro é a atmosfera perfeita para se criar uma fotografia digna de postal. As ruas em paralelo levam-nos até ao complexo da Senhora da Piedade, que foi explorado no dia anterior, dando origem ao artigo da semana passada (link).

À semelhança do dia anterior, atravessámos o jardim do Santuário da Ermida da Nossa Senhora da Piedade e percorremos o caminho em pedra que pertence ao PR 1 LSA - Caminho do Xisto da Lousã: Rota dos Moinhos. Tínhamos marcado no Google Maps a existência da Gruta da Fonte e da Cascata da Senhora da Piedade: como tal tínhamos de ir investigar e mal sabíamos o que íamos encontrar!

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A Gruta da Fonte fica uns metros antes da cascata, mas na verdade não conseguimos encontrar informação concreta sobre o que é e se realmente chegámos a ver a gruta. À escrita deste post, reparo que o mais certo é nunca termos chegado à gruta e o que vimos foi uma estrutura de pedra que sofreu a transformação humana. Numa parte do percurso há um caminho que sobe e outro caminho que desce, aqui devíamos ter subido em vez de seguirmos o caminho descendente. Pela descrição que vi, a Gruta da Fonte parece ser um local de enorme interesse quer geológico, quer turístico. Mas vou limitar-me a descrever o que vimos: um miradouro dentro de uma pedra; se fosse numa zona remota da serra, dizia que estávamos perante um abrigo de pastores.

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O som da água só pode significar que estamos perto da cascata e tudo indica que encontrámos o sítio certo. O nome leva o meu imaginário para uma cascata monumental ou de grandes dimensões, mas a verdade é que temos uma pequena cascata com um caudal generoso para a época do ano. A sua beleza não está na dimensão do caudal ou do tamanho da queda de água, está na envolvência verde que só é possível devido à água abundante que escorre pelas paredes rochosas que criam um ambiente húmido e propício para albergar inúmeras espécies de anfíbios.

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Explorar os detalhes da natureza é como desvendar um tesouro: é um convite para uma jornada de descoberta e apreciação. Das intricadas texturas das folhas, às cores subtis dos anfíbios, cada detalhe oferece-nos uma narrativa única. Os padrões dos galhos entrelaçados, os raios de sol filtrados através das copas das árvores, os sons suaves da brisa nas folhas - todos esses elementos criam uma sinfonia perfeita da qual fazemos parte, mas nunca paramos para apreciar. Ao explorar o detalhe da natureza, somos lembrados que as coisas mais simples podem conter segredos profundos e uma complexidade encantadora. Assim, somos convidados a desacelerar, a olhar mais de perto e a perdermo-nos nos encantos da natureza, descobrindo que, às vezes, é nos detalhes que encontramos a verdadeira essência da vida.

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Um olhar mais atento revela um movimento na água que só pode significar uma de duas coisas: uma rã ou uma salamandra. Qualquer uma seria uma observação incrível e digna de registo, mas o destino quis que fosse um dos anfíbios endémicos da Península Ibérica mais bonitos de Portugal: a rã ibérica Rana ibérica. Este anfíbio de 5,5 centímetros de comprimento e focinho pontiagudo apresenta “uma faixa temporal escura, que parte das narinas e atravessa os olhos proeminentes, bordeada na sua zona inferior por uma banda esbranquiçada, mais estreita, que se estende do olho à boca”1 . Em Portugal, apresenta um estatuto de proteção “Pouco Preocupante” e uma ampla distribuição geográfica. Esta espécie pode ser usada como indicador do estado da água, pois tem preferência por zonas bem oxigenadas e despoluídas.

 

Um dado interessante sobre a interação desta espécie com o Homem é a relação com a prática agrícola: uma das ameaças que enfrenta, para além da poluição ou alterações climáticas, é a intensificação da agricultura e o consequente abandono de práticas tradicionais como os lameiros (terreno húmido ou alagado onde cresce erva de pastagem). Temos muito para aprender com as espécies que habitam o nosso território. O Homem e a Natureza podem conviver no mesmo espaço sem prejuízo para qualquer uma das partes. O problema é a constante procura por lucros e por práticas de produção intensiva que só aceleram a destruição dos solos dos cursos de água. Estas fotografias não valem só pelo registo da espécie, mas sim pelo registo dos poucos cursos ainda selvagens ou semi-selvagens que podemos encontrar em Portugal.

 

O Castelo da Lousã, com sua majestosa presença e história, personifica uma verdadeira joia paisagística de Portugal, sendo que os seus arredores também escondem outros tesouros naturais, como a Gruta da Fonte e a misteriosa Cascata da Senhora da Piedade. Estes lugares encantadores oferecem aos visitantes a oportunidade de se conectarem com a natureza e assim desfrutar da serenidade e da beleza proporcionada pelo som da água corrente. Numa corrida contra o tempo ao tentar capturar a essência deste lugar único em trinta minutos, sentimos que fica algo por fotografar. No entanto, a envolvência que esmaga o nosso Ser deixa uma marca inevitável na nossa memória. Por algum motivo Saramago afirmou que o Castelo da Lousã tem uma das paisagens mais belas de Portugal.

 

1https://www.museubiodiversidade.uevora.pt/elenco-de-especies/biodiversidade-actual/anfibios/rana-iberica/